Antes de partir: celebrando a vida com os poetas da gratidão Facundo Cabral, Whitman e Tagore. Kátia M. L. Mendonça


Hoje o homem está sentado 
 Sobre o ovo sem germe. 
E o aquece mais e mais. 
O ovo se putrefaz debaixo dele, 
Mas ele continuará a chocar. 
Protege o ovo podre De onde o novo nunca sairá! 
Enquanto choca, o pássaro Não põe outros ovos. Grave isso!”
(Diálogo com o Anjo, transcrito por Gitta Mallasz).

    A passagem acima é uma das mensagens dos anjos de Deus recebidas por um grupo de quatro amigos na Hungria, durante a II Guerra Mundial e transcritas pela única que sobreviveu aos horrores do nazismo, Gitta Mallasz. Nas florestas da Hungria, em 1943, aqueles jovens têm a experiência da revelação de verdades profundas e eternas que dizem respeito a todos nós. Em 2020, como eles, nos defrontamos com a luta entre a fé e o medo e com a  expectativa concreta da morte física próxima e anunciada, embora saibamos que desde nosso nascimento vivemos com a presença da irmã morte, como a chama o Louco de Assis. Mas, hoje podemos dizer que 
O OVO PODRE FOI QUEBRADO!
    Foi quebrado o ovo pútrido que carrega consigo a destruição do outro. Destruição na forma de violência contra as crianças, contra os desvalidos, contra os pobres, contra as mulheres, etc. Violência através das guerras, do terrorismo, dos assassinatos, da corrupção, do aborto e da eutanásia e dos fascismos. Violência sustentada pelo aparato estatal, mas também violência de uns contra os outros.
Quase que de repente tudo parou! 
Um silêncio se fez...
Muitos ainda tentam recolher do chão os restos da gema fétida. 
São cegos. O tempo se encerrou! 
THE GAME IS OVER!
    Hoje todos estamos tendo a oportunidade de descobrir uma antiga verdade: que somos iguais, que somos peças de um único cosmo. Todos somos convidados a sermos as incubadoras do OVO COM VIDA! 

Somos convidados a ver o mundo como Withman, poeta da gratidão:
Docemente cresceu e se espalhou
em torno a mim a paz-sabedoria
além de todo argumento da terra,
e eu sei que a mão de Deus
é promessa da minha,
e eu sei que o espírito de Deus
é irmão do meu,
e que todos os homens já nascidos
são também meus irmãos.

    
    De repente, tudo parou.
    Os habitantes da Amazônia espoliada, os milicianos do Rio de Janeiro e os ricos habitantes de Milão, somos todos irmãos, porque partes de um mesmo e frágil corpo Nosso maior combate será entre a fé e o medo, entre as trevas e a Luz.
    Mas LUZ inevitavelmente vencerá, pois há dois ovos, como diz o Anjo a Gitta Mallasz: o ovo podre que a humanidade chocou até então e o ovo com o germe da vida. Este está germinando. Da morte e do caos ele surgirá: 
“No calor eclode o germe e
Apodrece o ovo sem germe”.


    Mas, atenção, lembra o anjo:
“somente ELE pode dar germes,
O SENHOR DOS GERMES”.  
    ELE que nós eclipsamos, nestes séculos de tanta crueldade, riqueza e ciência.
    Este é o momento gracioso que Ele nos deu para compreendermos isto!
    Eu não sei se materialmente verei o ovo com germe da vida que surge da destruição e de tudo o que ela ainda trará. Mas quero agradecer o dia de hoje, este momento, junto com outro poeta da gratidão, o amado Facundo Cabral:
Este es un nuevo día
Esta es la canción que canto cada mañana al despertar,
Para agradecerle al Cielo,
La gentileza de un nuevo día,
Es decir de una nueva oportunidad.
Porque siempre se puede empezar de nuevo,
En una eternidad siempre se puede empezar de nuevo,
Y esto es tan cierto como que el paraíso no está perdido sino olvidado.


    Agradecer por ter conhecido e amado nesta vida Cabral, Withman e Tagore. Eles me ensinaram a não perder a fé, a ver que a ciência, a literatura, as artes e a filosofia não passam de degraus para o cosmo e que se elas não elevarem os olhos para o céu serão destruídas, como o estão sendo. 
    Agradecer por ter visto as imagens de Tarkovski e com ele ter aprendido que 
“o objetivo da arte é preparar uma pessoa para a morte, arar e cultivar sua alma, tornando-a capaz de voltar-se para o bem”.
    Isso, eu compreendi, embora muitas vezes tenha falhado miseravelmente, que se aplica a tudo e não apenas à arte.
    Não existe a morte. Somente a física e mesmo ela transforma a matéria. A chamada morte da alma é uma escolha, antes que um desígnio de Deus.  Por isso sou grata. Grata por esta passagem pela Terra e por tentar marcar em minha alma, principalmente quando tentada pelo apego, que certo estava Jesus ao dizer:
SEDE PASSANTES! (Logion 42, Evangelho de Tomé).

    Grata pelos sons que me chegaram aos ouvidos. Grata pela música de Arvo Pärt e de Phillip Glass. Foi um privilégio viver no século deles e poder ouvi-los.
    Grata pelas ideias de Martin Buber que me ensinou a ver Deus em tudo e a compreender que minha vida é uma colcha de retalhos. Uma colcha da qual todos estes mencionados aqui tiveram um impacto espiritual, muito mais do que intelectual.
    Finalmente, agradecer por Tagore e com Tagore:
No relâmpago de um momento eu pude contemplar a imensidade de tua criação em minha vida
- uma criação através de mil mortes, de mundo a mundo.
Choro por meu desmerecimento, ao ver minha vida entregue nas mãos das horas sem sentido. 
Quando a vejo em tuas mãos, porém, compreendo que ela é preciosa demais para ser dissipada entre sombras.

Comentarios